segunda-feira, 12 de julho de 2010

12 de julho... Entre em meu lar sem bater

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Entre a mi pago sin golpear


Fue mucho mi penar
Andando lejos del pago
Tanto correr
Pa' llegar a ningún lado
Y estaba en donde nací
Lo que buscaba por ahí.

Es oro la amistad
Que no se compra ni vende
Solo se da
Cuando en el pecho se siente
No es algo que se ha de usar
Cuando te sirva y nada más.

Así es como se dan
En la amistad mis paisanos
Sus manos son
Pan, cacho y mate cebado
Y la flor de la humildad
Suele su rancho perfumar.

La vida me han presta'o
Y tengo que devolverla
Cuando el creador
Me llame para la entrega
Que mis huesos, piel y sal
Abonen mi suelo natal.

La luna es un terrón
que alumbra con luz prestada
Solo al cantor
Que canta coplas del alma
Le estalla en el corazón
El sol que trepa por su voz.

Cantor para cantar
Si nada dicen tus versos
¡Ay! Para qué
Vas a callar al silencio
Si es el silencio un cantor
Lleno de duendes en la voz.

Mi pueblo es un cantor
Que canta la chacarera
No ha de cantar
Lo que muy dentro no sienta
Cuando lo quiera escuchar
Entre a mi pago sin golpear.


(Pablo Raúl Trullenque - Carlos Carabajal)

quarta-feira, 7 de julho de 2010

8 de julho, madrugada... Ética!

A simples persistência contra todas as probabilidades é em última análise a matéria de que a ética é feita - ou, como Samuel Beckett o expressa nas últimas palavras da obra-prima absoluta da literatura do século XX, O inominável, uma saga da pulsão que persevera sob o disfarce de um objeto parcial morto-vivo, "no silêncio você não sabe, você deve continuar, eu não posso continuar, eu continuarei."

Slavoj Zizek

Como ler Lacan (Rio de Janeiro: Zahar, 2010, p. 146)

Escrevemos para Compreender

"No princípio respondia que escrevia para ser querido. Imediatamente esta resposta pareceu-me insuficiente e decidi que escrevia porque não gostava da ideia de ter que morrer. Agora digo, e talvez isto esteja certo, que, no fundo, escrevo para compreender."

José Saramago

La Vanguardia de Barcelona, 1 de Setembro de 1997

7 de julho, quatro e meia da manhã... Um soneto

Soneto a uma Velha Amiga

Havia na minha terra um gurizinho
Que adorava jogar bola na rua.
Mas adorava mais ficar sozinho,
À noite, no terraço, olhando a lua.

Ficava horas mirando-a, toda nua.
E compunha-lhe, às vezes, um versinho.
Queria, desejava que fosse sua
E que existisse até lá um caminho...

Mas cresceu o menino. Hoje, ele é poeta...
Já não vai mais ao terraço como antes,
Esqueceu da bola e da bicicleta.

Mas se lhe surge uma saudade antiga,
Vai à janela, e, olhando o céu distante,
Compõe mais uma vez para a lua amiga...

(Demétrio Cherobini)


hehehe

terça-feira, 6 de julho de 2010

6 de julho, seis da manhã... vinho, música e Lorca

O poeta pede a seu amor que lhe escreva

Amor de minhas entranhas, morte viva,
em vão espero tua palavra escrita
e penso, com a flor que se murcha,
que se vivo sem mim quero perder-te.
O ar é imortal. A pedra inerte
nem conhece a sombra nem a evita.
Coração interior não necessita
o mel gelado que a lua verte.

Porém eu te sofri. Rasguei-me as veias,
tigre e pomba, sobre tua cintura
em duelo de mordiscos e açucenas.
Enche, pois, de palavras minha loucura
ou deixa-me viver em minha serena
noite da alma para sempre escura.

(Federico Garcia Lorca)

segunda-feira, 28 de junho de 2010

28 de junho, segunda, cinco e meia da manhã... Neruda

Não tenho nunca mais, não tenho sempre,
Na areia a vitória deixou seus pés perdidos.
Sou um pobre homem disposto a amar seus semelhantes.
Não sei quem és. Te amo. Não dou, não vendo espinhos.

Alguém saberá talvez que não teci coroas
sangrentas, que combati o engano,
e que em verdade enchi a preamar de minha alma.
Eu paguei a vileza com pombas.

Eu não tenho jamais porque distinto
fui, sou, serei. E em nome
de meu mutante amor proclamo a pureza.

A morte é só pedra do esquecimento.
Te amo, beijo em tua boca a alegria.
Tragamos lenha. Faremos fogo na montanha.

(Pablo Neruda)

domingo, 27 de junho de 2010

Domingo, 27 de junho, 7 da manhã... Poética

Poética I

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.

Poética II

Com as lágrimas do tempo
E a cal do meu dia
Eu fiz o cimento
Da minha poesia.

E na perspectiva
Da vida futura
Ergui em carne viva
Sua arquitetura.

Não sei bem se é casa
Se é torre ou se é templo:
(Um templo sem Deus.)

Mas é grande e clara
Pertence ao seu tempo
– Entrai, irmãos meus!

(Vinícius de Moraes)

sexta-feira, 25 de junho de 2010

26 de junho... Jardim das Acácias

Nada vejo por essa cidade
Que não passe de um lugar comum
Mas o solo é de fertilidade
No jardim dos animais em jejum
Esperando alvorecer de novo
Esperando anoitecer pra ver
A clareza da oitava estrela
Esperando a madrugada vir
E eu não posso com a mão retê-la
E eu não passo de um rapaz comum
Como e corro, trafego na rua
Fui graveto no bico do anum
Vez em quando sou dragão da lua
Momentâneo alienígena
A formiga em viva carne crua
Perecendo e naufragando no mar!

A papoula da Terra do Fogo
Sanguessuga sedenta de calor
Desemboco o canto nesse jogo
Como a cobra se contorce de dor
Renegando a honra da família
Venerando todo ser criador
No avesso de um espelho claro
No chicote da barriga do boi
No mugido de uma vaca mansa
Foragido como Judas em paz
A pessoa que você mais ama
No planeta vendo o mundo girar

(Zé Ramalho)

quarta-feira, 23 de junho de 2010

24 de junho, madrugada... uma mulher me ama

Uma mulher me ama. Se eu me fosse
Talvez ela sentisse o desalento
Da árvore jovem que não ouve o vento
Inconstante e fiel, tardio e doce.

Na sua tarde em flor. Uma mulher
Me ama como a chama ama o silêncio
E o seu amor vitorioso vence
O desejo da morte que me quer.

Uma mulher me ama. Quando o escuro
Do crepúsculo mórbido e maduro
Me leva a face ao gênio dos espelhos

E eu, moço, busco em vão meus olhos velhos
Vindos de ver a morte em mim divina:
Uma mulher me ama e me ilumina.

(Vinícius de Moraes)

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Não te rendas

Não te rendas, ainda há tempo
Para voltar e começar de novo,
Aceitar as sombras,
Enterrar os medos,
Soltar o lastro,
Retomar o voo.

Não te rendas, pois a vida é
Continuar a viagem,
Perseguir os sonhos,
Destravar o tempo,
Percorrer os escombros
E desvelar o céu.

Não te rendas, por favor, não desistas,
Ainda que o frio queime,
O medo morda
E o sol se esconda,
Ainda que se cale o vento.
Ainda há lume na tua alma,
E vida nos teus sonhos.

Não te rendas
Porque a vida é tua e também o desejo
Porque o quiseste e porque te quero,
Porque existe o vinho e o amor, é claro.
Porque não há ferida que o tempo não cure.

Abrir as portas,
Livrá-las das trancas,
Abandonar as muralhas que te protegeram,
Viver a vida e aceitar o desafio,
Recuperar o riso,
Arriscar uma canção,
Baixar a guarda e estender as mãos,
Distender as asas
E tentar de novo
Celebrar a vida e retomar os céus.

Não te rendas, por favor, não desistas,
Ainda que o frio queime,
O medo morda
E o sol se esconda,
Ainda que se cale o vento.
Ainda há lume na tua alma,
E vida nos teus sonhos.
Porque cada dia é um novo começo
Porque essa é a hora e o melhor momento
Porque não estás só, porque eu te quero.

(Mario Benedetti)

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Sobre a coragem

Como, então, poderemos revolucionar uma ordem cujo mais genuíno principio é o constante auto-revolucionamento? Essa, talvez, seja a questão de hoje, e esse é o modo segundo o qual deveríamos repetir Mao, reinventando sua mensagem às centenas de milhões de pessoas que sofrem a opressão, uma simples e tocante mensagem de coragem: "Não é para temer o que é grande. O grande será derrubado pelo pequeno. O pequeno se tornará grande." (…)

"Não devemos ter medo." Não será essa a única atitude correta diante da guerra? "Primeiro, somos contra ela; segundo, não a tememos." Há definitivamente algo de aterrador nessa posição – no entanto, esse terror nada mais é senão a condição da liberdade.

(Slavoj Zizek)


ZIZEK, Slavoj. Mao Tsé-Tung, “Senhor do Desgoverno” marxista. in TSÉ-TUNG, Mao. Sobre a prática e a contradição. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008, p. 38.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Amar é quebrar barreiras

Damos dinheiro para manter o sofrimento dos outros a uma distância segura que nos permite satisfazer a simpatia emocional sem colocar em perigo nosso isolamento seguro de sua realidade. Essa separação das vítimas é a verdade do discurso da vitimação: eu (o assediado) versus os outros (do Terceiro mundo ou os sem-teto de nossas cidades) com quem simpatizo à distância. Em contraste com essa bagagem ideológico-emocional, a autêntica obra de amor não reside em ajudar o outro como se jogássemos para ele migalhas de nossa riqueza através de uma barreira segura: é, em realidade, o trabalho de desmontar essa barreira, de atingir diretamente o sofrimento excluído do Outro.

ZIZEK, Slavoj. Às portas da revolução: escritos de Lenin de 1917. São Paulo: Boitempo, 2005, p. 222-3.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Sobre os sintomas das oportunidades perdidas, no amor e nas revoluções

A verdadeira escolha com relação ao trauma histórico não está entre lembrar-se ou esquecer-se dele: os traumas que não estamos dispostos a ou não somos capazes de relembrar assombram-nos com mais força. É necessário então aceitar o paradoxo de que, para realmente esquecer um acontecimento, precisamos primeiramente criar a força para lembrá-lo. Para responder a este paradoxo, devemos ter em mente que o contrário de existência não é inexistência, mas insistência: o que não existe continua a insistir, lutando para passar a existir (…). Quando perco uma oportunidade ética crucial e deixo de realizar a ação que “mudaria tudo”, a própria inexistência do que eu deveria ter feito há de me perseguir para sempre: apesar de não existir o que eu não fiz, seu espectro continua a insistir. Numa leitura notável das “Teses sobre Filosofia da História”, de Walter Benjamin, Eric Santner desenvolve a noção benjaminiana de que uma intervenção revolucionária presente repete e redime as tentativas fracassadas do passado. Os “sintomas” - traços passados que são retroativamente redimidos pelo “milagre” da intervenção revolucionária - “não são atos esquecidos, mas, pelo contrário, as omissões de ação que ficaram esquecidas, a incapacidade de suspender a força da ligação social que inibe os atos de solidariedade com os 'outros' da sociedade”:

“Os sintomas registram não somente as tentativas fracassadas do passado, mas, mais modestamente, as ocasiões no passado em que se deixou de reagir ao chamado à ação ou à empatia pelos outros cujo sofrimento de alguma forma pertence à forma de vida de que se é parte. Ocupam o lugar de alguma coisa que está lá,que insiste na nossa vida, apesar de nunca ter chegado à completa consistência ontológica. Assim, os sintomas são, em certo sentido, os arquivos virtuais dos vazios – ou, talvez melhor, defesas contra os vazios – que persistem na experiência histórica.”

Santner especifica a maneira como esses sintomas tomam forma de disrupções da vida social “normal”, como participações nos rituais obscenos da ideologia dominante. Não teria sido a infame Kristallnacht de 1938 – a explosão de violência meio espontânea, meio organizada contra os lares, sinagogas, negócios e pessoas de judeus – um perfeito “carnaval” bakhtiniano? A Kristallnacht deve ser entendida como um “sintoma”: a fúria de tal explosão de violência a faz um sintoma – o mecanismo de defesa que cobre o vazio da incapacidade de intervir eficazmente na crise social. Noutras palavras, a própria fúria dos pogroms anti-semitas é uma prova a contrario da possibilidade da autêntica revolução proletária: sua energia excessiva só pode ser entendida como uma reação ao reconhecimento (“inconsciente”) da oportunidade revolucionária perdida. E não seria a causa última da Ostalgia (nostalgia pelo passado comunista) entre muitos intelectuais (e até mesmo entre pessoas comuns) da falecida República Democrática da Alemanha também o desejo, não tanto do passado comunista, do que realmente aconteceu sob o comunismo, mas do que poderia ter acontecido, da oportunidade perdida de uma outra Alemanha? Conseqüentemente, não seriam também as explosões pós-comunistas de violência neonazista uma prova negativa da presença dessas oportunidades de emancipação, uma explosão sintomática de fúria que substitui a consciência de oportunidades perdidas? Não devemos ter medo de traçar um paralelo com a vida psíquica individual; assim como a consciência da perda de uma oportunidade “privada” (por exemplo, a oportunidade de se envolver numa relação amorosa enriquecedora) geralmente deixa traços sob a forma de angústias, dores de cabeça e acessos de raiva “irracionais”, o vazio da oportunidade revolucionária perdida pode acabar explodindo em acessos “irracionais” de fúria destrutiva...

(Slavoj Zizek)

ZIZEK, Slavoj. Bem-vindo ao deserto do Real! - São Paulo: Boitempo Editorial, 2003, p. 37-9.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Una mujer desnuda y en lo escuro

Una mujer desnuda y en lo oscuro
tiene una claridad que nos alumbra
de modo que si ocurre un desconsuelo
un apagón o una noche sin luna
es conveniente y hasta imprescindible
tener a mano una mujer desnuda.

Una mujer desnuda y en lo oscuro
genera un resplandor que da confianza
entonces dominguea el almanaque
vibran en su rincón las telarañas
y los ojos felices y felinos
miran y de mirar nunca se cansan.

Una mujer desnuda y en lo oscuro
es una vocación para las manos
para los labios es casi un destino
y para el corazón un despilfarro
una mujer desnuda es un enigma
y siempre es una fiesta descifrarlo.

Una mujer desnuda y en lo oscuro
genera una luz propia y nos enciende
el cielo raso se convierte en cielo
y es una gloria no ser inocente
una mujer querida o vislumbrada
desbarata por una vez la muerte.

(Mario Benedetti)

quinta-feira, 20 de maio de 2010

O que é a vida? O que a torna digna de ser vivida?

Na medida em que "morte" e "vida" designam para São Paulo [o apóstolo] duas posições existenciais (subjetivas), e não fatos "objetivos", é justificável que se faça a pergunta paulina: "Quem está realmente vivo hoje?"

E se somente estivermos realmente vivos se nos comprometermos com uma intensidade excessiva que nos coloca além de uma "vida nua"? E se, ao nos concentrarmos na simples sobrevivência, mesmo quando é qualificada de "uma boa vida", o que realmente perdemos na vida for a própria vida? (...) E se, em termos de processo revolucionário, a diferença que separa a era de Lenin da de Stalin for, mais uma vez, a diferença entre a vida e a morte? Existe uma característica aparentemente marginal que esclarece bem essa questão: a atitude básica do comunista stalinista é a de seguir a correta linha do partido contra os desvios à "esquerda" ou à "direita" – isto é, seguir o seguro caminho do meio; quanto ao leninismo autêntico, em nítido contraste, só existe um único desvio, o de centro – o de "não correr riscos", de evitar oportunisticamente o risco de clara e excessivamente "escolher um lado". (...) Essa excessiva "escolha de lados", o desequilíbrio ziguezagueante permanente, é, em última análise, a própria vida (política revolucionária) – para um leninista, o nome definitivo da direita contra-revolucionária é o próprio "centro", o medo de introduzir um desequilíbrio radical no edifício social. (...)

O que torna a vida "digna de ser vivida" é o próprio excesso de vida: a consciência da existência de algo pelo que alguém se dispõe a arriscar a vida (podemos chamar esse excesso de "liberdade", "honra", "dignidade", "autonomia", etc.). Somente quando prontos a assumir esse risco estamos realmente vivos.

ZIZEK, Slavoj. Bem-vindo ao deserto do Real! São Paulo: Boitempo Editorial, 2003, p. 108-9.