segunda-feira, 30 de agosto de 2010

30 de agosto... 6 da manhã. Bebendo vinho com o velho Omar Kahyyam.

3

Olha com indulgência aqueles que se embriagam;
os teus defeitos não são menores.
Se queres paz e serenidade, lembra-te
da dor de tantos outros, e te julgarás feliz.

4

Que o teu saber não humilhe o teu próximo.
Cuidado, não deixes que a ira te domine.
Se esperas a paz, sorri ao destino que te fere;
não firas ninguém.


5

Busca a felicidade agora, não sabes de amanhã.
Apanha um grande copo cheio de vinho,
senta-te ao luar, e pensa:
Talvez amanhã a lua me procure em vão.


7

Alcorão, o livro supremo, pode ser lido às vezes,
mas ninguém se deleita sempre em suas páginas.
No copo de vinho está gravado um texto de adorável
sabedoria que a boca lê, a cada vez com mais delícia.


13

Não vamos falar agora, dá-me vinho. Nesta noite
a tua boca é a mais linda rosa, e me basta.
Dá-me vinho, e que seja vermelho como os teus lábios;
o meu remorso será leve como os teus cabelos.


18

Não me lembro do dia em que nasci;
não sei em que dia morrerei.
Vem, minha doce amiga, vamos beber desta taça
e esquecer a nossa incurável ignorância.


20

É inútil te afligires por teres pecado;
também é inútil a tua contrição:
além da morte estará o Nada,
ou a Misericórdia.


23

O vasto mundo: um grão de areia no espaço.
A ciência dos homens: palavras. Os povos,
os animais, as flores dos sete climas: sombras.
O profundo resultado da tua meditação: nada.


24

Eu estava com sono e a Sabedoria me disse:
A rosa da felicidade não se abre para quem dorme;
por quê te entregares a esse irmão da morte?
Bebe vinho; tens tantos séculos para dormir...


28

Os sábios mais ilustres caminharam nas trevas da ignorância,
e eram os luminares do seu tempo.
O que fizeram? Balbuciaram algumas frases confusas,
e depois adormeceram, cansados.


37

Quando me falam das delícias que na outra vida
os eleitos irão gozar, respondo:
Confio no vinho, não em promessas;
o som dos tambores só é belo ao longe.


38

Bebe vinho, ele te devolverá a mocidade,
a divina estação das rosas, da vida eterna,
dos amigos sinceros. Bebe, e desfruta
o instante fugidio que é a tua vida.


39

Bebe o teu vinho. Vais dormir muito tempo
debaixo da terra, sem amigos, sem mulheres.
Confio-te um grande segredo:
As tulipas murchas não reflorescem mais.


47

Se em teu coração cultivaste a rosa do amor,
quer tenhas procurado ouvir a voz de Deus,
ou esgotado a taça do prazer,
a tua vida não foi em vão.


51

A vida passa. O que resta de Bagdad e Balk?
A aragem mais leve é fatal à rosa já desabrochada.
Bebe o vinho, e contempla a lua:
lembra-te das civilizações que ela já viu morrer.


53

Mestres e sábios morreram
sem se entenderem sobre o Ser e o Não Ser.
Nós, ignorantes, vamos apanhar as tenras uvas;
que os grandes homens se regalem com as passas.


55

Iremos nos perder na estrada do amor,
e o destino nos pisará, indiferente.
Vem, menina, taça encantada, dá-me de beber
em teus lábios, antes que eu me torne pó.


56

Só de nome conhecemos a felicidade.
O nosso melhor amigo é o vinho;
afaga a única que te é fiel: a ânfora,
cheia do sangue das vinhas.


58

Senta-te e bebe, felicidade que Mahmud não teve.
Escuta os sussuros dos amantes, são os Salmos de Davi.
Não te importes com o passado, não sondes o futuro,
não percas este instante: Eis a paz.


59

Pessoas presunçosas e obtusas inventaram
diferenças entre o corpo e a alma.
Sei apenas que o vinho apaga as angústias
que nos atormentam, e nos devolve a calma.


61

Não temo a morte. Prefiro esse ato inelutável
ao outro que me foi imposto no dia em que nasci.
O que é a vida, afinal? Um bem que me confiaram
sem me consultarem e que entregarei com indiferença.


62

Estou velho, e a paixão que me inspiraste
vai me levar ao túmulo: não cesso de encher a taça.
Esta paixão tem razão contra mim:
o tempo estraga a minha bela rosa.


63

Podes me perseguir, miragem de outra ventura,
podes modular a tua voz, mas só escuto aquela
que já me encantou. Dizem-me: Deus te perdoará.
Recuso o perdão que não pedi.


64

Um pouco de pão, um pouco de água,
a sombra de uma árvore, e o teu olhar;
nenhum sultão é mais feliz do que eu,
e nenhum mendigo é mais triste.


66

Vinho, bálsamo para o meu coração doente,
vinho da cor das rosas, vinho perfumado
para calar a minha dor. Vinho, e o teu alaúde
de cordas de seda, minha amada.


68

Todos pretendem andar pelo Caminho do Saber.
Uns o procuram, outros afirmam tê-lo encontrado.
Um dia uma grande voz dirá: Não há caminho,
nem atalho.


69

Brinda ao resplendor da aurora, e dedica
o vinho vermelho desta taça, em forma de chama,
ou de tulipa, ao sorriso meigo de algum adolescente.
Bebe, e esquece que o punho da dor te prostrará.


70

Vinho! Que palpite em minhas veias,
que inunde a minha cabeça. Silêncio!
Tudo é mentira. Copos! Depressa!
Envelheci muito.


71

Do meu túmulo virá um tal perfume de vinho
que embriagará os que por lá passarem,
e uma tal serenidade vai pairar ali,
que os amantes não quererão se afastar.


73

Alguns amigos me dizem: Não bebas mais Khayyam.
Respondo: Quando bebo, ouço o que me dizem
as rosas, as tulipas, os jasmins;
ouço até o que não me diz a minha amada.


74

Em que pensas? Nos que já morreram? São pó no pó.
Pensas nas virtudes que tiveram? Sim? Deixa-me sorrir.
Toma este copo, vamos beber; ouve sem inquietação
o vasto Silêncio do Universo.


79

Não terás paz na terra, e é tolice acreditar
no repouso eterno. Depois da morte
teu sono será breve: renascerás na erva
que será pisada, ou na flor que murchará.


85

Os meus cabelos estão brancos,
tenho setenta anos de idade.
Agarro agora a felicidade; amanhã,
talvez não me restem forças.


86

Nunca procurei saber onde encontrar
o manto da mentira e do ardil,
mas sempre andei à procura
dos melhores vinhos.


89

Somos os peões deste jogo do xadrez
que Deus trama. Ele nos move, lança-nos
uns contra os outros, nos desloca, e depois
nos recolhe, um a um, à Caixa do Nada.


90

A abóbada celeste se parece a uma taça emborcada;
sob ela, em vão, erram os sábios.
Ama a tua amada como a ânfora ama o copo;
olha, boca a boca, ela lhe dá o seu próprio sangue.


92

Não aprendeste nada com os sábios,
mas o roçar dos lábios de uma mulher em teu peito
pode te revelar a felicidade.
Tens os dias contados. Toma vinho.


93

O vinho dá-te o calor que não tens;
suaviza o jugo do passado e te alivia
das brumas do futuro; inunda-te de luz
e te liberta desta prisão.


96

Um dia pedi a um velho sábio
que me falasse sobre os que já se foram.
Ele disse:
Não voltarão. Eis o que sei.


98

Onde estão os nossos amigos? Já morreram?
Ainda os ouço na taverna...
já se foram? ou estarão embriagados
de tanto terem vivido?


107

O vinho é da cor das rosas;
talvez não seja o sangue das uvas, mas das rosas;
e o azul desta taça talvez seja o céu cristalizado;
e não seria a noite a pálpebra do dia?


120

Rosas, taças, lábios vermelhos:
brinquedos que o Tempo estraga;
estudo, meditação, renúncia:
cinzas que o Tempo espalha.


(Omar Kahyyam - Rubayat)

domingo, 29 de agosto de 2010

29 de agosto, 23 horas... Poesia

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Não sei se é sonho, se realidade,
Se uma mistura de sonho e vida,
Aquela terra de suavidade
Que na ilha extrema do sul se olvida.
É a que ansiamos. Ali, ali
A vida é jovem e o amor sorri.

Talvez palmares inexistentes,
Áleas longínquas sem poder ser.
Sombra ou sossego dêem aos crentes
De que essa terra se pode ter.
Felizes, nós? Ah, talvez, talvez,
Naquela terra, daquela vez.

Mas já sonhada se desvirtua,
Só de pensá-la cansou pensar,
Sob os palmares, à luz da lua,
Sente-se o frio de haver luar.
Ah, nessa terra também, também
O mal não cessa, não dura o bem.

Não é com ilhas do fim do mundo,
Nem com palmares de sonho ou não,
Que cura a alma seu mal profundo,
Que o bem nos entra no coração.
É em nós que é tudo. É ali, ali,
Que a vida é jovem e o amor sorri.


(Fernando Pessoa)

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quinta-feira, 26 de agosto de 2010

27 de agosto, madrugada... Fernando Pessoa

Ah, quanta vez, na hora suave
Em que me esqueço,
Vejo passar um vôo de ave
E me entristeço!

Por que é ligeiro, leve, certo
No ar de amavio?
Por que vai sob o céu aberto
Sem um desvio?

Por que ter asas simboliza
A liberdade
Que a vida nega e a alma precisa?
Sei que me invade

Um horror de me ter que cobre
Como uma cheia
Meu coração, e entorna sobre
Minh'alma alheia

Um desejo, não de ser ave,
Mas de poder
Ter não sei quê do vôo suave
Dentro em meu ser.

(Fernando Pessoa)

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

18 de agosto, raiando o dia...

Canción de amor


Amor, deja que me vaya,
déjame morir, amor.
Tú eres el mar y la playa.
Amor.
Amor, déjame la vida,
no dejes que muera, amor.
Tú eres mi luz escondida.
Amor.
Amor, déjame quererte.
Abre las fuentes, amor.
Mis labios quieren beberte.
Amor.
Amor, está anocheciendo.
Duermen las flores, amor,
y tú estás amaneciendo.
Amor.

(Rafael Alberti)

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

13 de agosto, madrugada... Liberdade!

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"O prêmio Darwin ao ato mais estúpido de 2001 foi conferido postumamente a uma pobre mulher do interior da Romênia que acordou no meio do seu próprio cortejo fúnebre; depois de sair do caixão e de perceber o que estava acontecendo, correu às cegas, apavorada, foi atropelada por um caminhão numa estrada próxima e morreu na hora... Não é esse o maior exemplo do que chamamos de destino? A questão da liberdade, em seu aspecto mais radical, é a questão de como se pode romper esse círculo fechado do destino."

Slavoj Zizek (A visão em paralaxe, p. 279)


"Em seu aspecto mais elementar, a liberdade não é a liberdade de fazer o que se quer (isto é, de seguir nossas tendências sem nenhuma restrição imposta de fora), mas fazer o que não se quer, frustrar a realização 'espontânea' de um ímpeto. Esse é o vínculo entre a liberdade e a 'pulsão de morte' freudiana, que é também a pulsão de sabotar a tendência ao prazer."

Slavoj Zizek (A visão em paralaxe, p. 272-3)


"A liberdade não é um estado neutro e bem-aventurado de harmonia e equilíbrio, mas o próprio ato violento que perturba esse equilíbrio."

Slavoj Zizek (A visão em paralaxe, p. 373)

terça-feira, 3 de agosto de 2010

3 de agosto, 23 horas... mais uma noite na companhia de Walt Whitman

“...Já percebi que estar junto de quem gosto me basta,
Ficar na companhia dos outros num fim de tarde me basta,
Estar cercado por suas carnes belas curiosas gargalhantes e sem fôlego me basta,
Passar no meio deles... tocar qualquer um... pousar de leve meu braço ao redor do pescoço dele ou dela por um momento... o que é isso?
Não peço delícia melhor... mergulho nisso como num mar.

Tem alguma coisa em ficar perto de homens e mulheres e no olhar e no contato e nos seus cheiros que satisfazem a alma,
Todas as coisas satisfazem a alma, mas essas sim satisfazem a alma...”

(Walt Whitman)

sábado, 24 de julho de 2010

25 de julho... madrugada com Walt Whitman

Tenho dito que a alma
não é mais do que o corpo
e tenho dito que o corpo
não é mais do que a alma,

e que nada, nem Deus,
para ninguém é mais
do que a própria pessoa,

e quem anda duzentas jardas
sem vontade
anda seguindo o próprio funeral
vestindo a própria mortalha,

e que eu como vocês
sem um tostão no bolso
posso comprar
o que o mundo tem de melhor,

e dar uma vista d'olhos
ou mostrar uma vagem no seu galho
confunde o aprendizado
de todos os tempos,

e não existe emprego ou desemprego
em que um homem não possa ser herói,
e coisa nenhuma há de ser tão mole
que não sirva de cubo às rodas do universo,

e a qualquer homem ou mulher eu digo:
- Deixem que se levantem as almas de vocês
tranqüilas e bem postas ante um milhão de sóis!

(Walt Whitman)

quinta-feira, 22 de julho de 2010

23 de julho, madrugada... poesia.

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"IV

(...) Nuestras horas son minutos
cuando esperamos saber,
y siglos cuando sabemos
lo que se puede aprender.(...)"

(Antonio Machado)

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quarta-feira, 21 de julho de 2010

22 de julho, madrugada... "Um bom samba é uma forma de oração"

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Samba Da Bênção


É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração
Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não

(Senão é como amar uma mulher só linda
E daí? Uma mulher tem que ter
Qualquer coisa além de beleza
Qualquer coisa de triste
Qualquer coisa que chora
Qualquer coisa que sente saudade
Um molejo de amor machucado
Uma beleza que vem da tristeza
De se saber mulher
Feita apenas para amar
Para sofrer pelo seu amor
E pra ser só perdão)

Fazer samba não é contar piada
E quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração
Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não

(Feito essa gente
que anda por aí brincando com a vida
Cuidado, companheiro
A vida é pra valer
Não se engane, não
É uma só
Duas mesmo que é bom
Ninguém vai me dizer que tem sem provar
muito bem provado com certidão passada em cartório do Céu assinado em baixo: Deus!
E com firma reconhecida
A vida não é de brincadeira, amigo
A vida é arte do encontro
embora haja tanto desencontro pela vida
Há sempre uma mulher a sua espera
com os olhos cheios de carinho
e as mãos cheias de perdão
Ponha um pouco de amor na sua vida,
como no seu samba)

Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não
Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração

(Eu, por exemplo, o capitão do mato
Vinicius de Moraes
Poeta e diplomata
O branco mais preto do Brasil
Na linha direta de Xangô, saravá!
A bênção, Senhora
A maior ialorixá da Bahia
Terra de Caymmi e João Gilberto

A bênção, Pixinguinha
Tu que choraste na flauta
Todas as minhas mágoas de amor
A bênção, Sinhô, A bênção Cartola,
A bênção, Ismael Silva
Sua bênção, Heitor dos Prazeres
A bênção, Nelson Cavaquinho
A bênção, Geraldo Pereira
A bênção, meu bom Cyro Monteiro
Você, sobrinho de Nonô

A bênção, Noel, sua bênção, Ary
A bênção, todos os grandes
Sambistas do meu Brasil
Branco, preto, mulato
Lindo como a pele macia de Oxum
A bênção, maestro Antonio Carlos Jobim
Parceiro e amigo querido
Que já viajaste tantas canções comigo
E ainda há tantas a viajar

A bênção, Carlinhos Lyra
Parceirinho cem por cento
Você que une a ação ao sentimento
E ao pensamento, a bênção
A bênção, a bênção, Baden Powell
Amigo novo, parceiro novo
Que fizeste este samba comigo
A bênção, amigo
A bênção, maestro Moacir Santos
Não és um só, és tantos como
O meu Brasil de todos os santos
Inclusive meu São Sebastião
Saravá!
A bênção, que eu vou partir
Eu vou ter que dizer adeus)

Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não
Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração

(Vinícius de Moraes)

sexta-feira, 16 de julho de 2010

17 de julho, duas da manhã ... A brusca poesia que me vem de madrugada

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Poema para uma singela cidadezinha esquecida ao sul do mapa

Uma cidade muito engraçada
Não tinha emprego, não tinha nada

Ninguém podia andar nela, não
Porque calçado não era o chão

Ninguém podia dormir na rede
Porque a rede se foi na enchente

Ninguém podia fazer pipi
Porque não havia esgoto ali

Ninguém podia fazer cocô
Porque a patente o vento levou

Ninguém podia comer churrasco
Porque o salário era um fiasco

Uma cidade muito engraçada:
Monte de casa à beira da estrada

Ninguém podia obter verba, não
Porque o prefeito era um ladrão

Ninguém podia juntar dinheiro
Porque o pastor pedia primeiro

Ninguém ouvia reclamação
Pois voz se dava só ao patrão

E ninguém podia se instruir
Porque a imprensa reinava ali

E assim, à tal cidade engraçada
Só lhe restava virar piada...

:(

(Demétrio Cherobini)

Teoria política para o tempo presente

Em defesa de uma luta emancipadora coerente e radical: István Mészáros e a atualidade da ofensiva socialista


É bastante conhecido o mote marxiano - lançado em 1844, na Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel - de que somente uma postura radical pode emancipar o homem da sujeição às construções históricas que lhe colocam na condição de ser “humilhado, escravizado, abandonado, desprezível”. Ora, na visão de Marx, ser radical é ir à raiz dos problemas. No caso dos seres humanos, as raízes das suas mazelas estão, justamente, na sua própria atividade social, nas relações que estabelecem entre si e na forma de intercâmbio que mantêm com a natureza. Ocorre que, em dado momento, por razões específicas, um determinado conjunto de relações e atividades se autonomiza parcialmente do controle consciente de seus criadores e se volta contra eles, dominando-os de uma maneira alienada e fetichista. Para combater esse estado de coisas - a “força material” que oprime na prática - é necessária – e aqui torna-se perfeitamente claro o significado da proposta revolucionária do filósofo alemão – a formação de uma outra força, também material, também prática, que seja capaz assim de se lhe contrapor radicalmente. Em nossos dias, um dos teóricos que com maestria e lucidez retoma a recomendação de radicalidade feita por Marx é o filósofo húngaro István Mészáros.

O que é que deve ser a práxis revolucionária no contexto do século XXI? Pelo quê e como devemos lutar? Quais princípios devem orientar a luta pela emancipação humana em nosso tempo histórico? Quais coordenadas devem balizar nossas ações políticas? Em A atualidade histórica da ofensiva socialista – uma alternativa ao sistema parlamentar,(1) Mészáros nos proporciona valiosos esclarecimentos a esse respeito. Trata-se de uma defesa intransigente e sem concessões da tese de que os socialistas e os trabalhadores só podem ter sucesso, no seu intuito de superar a ordem do capital, se se constituírem fundamentalmente como movimento extraparlamentar imbuído do objetivo precípuo de retomar conscientemente as rédeas dos processos que regulam o metabolismo social humano.(2) Qual a base dessa idéia?

O filósofo inicia seu ensaio definindo aquilo que chama de caráter alienado da política institucional em nossas sociedades, isto é, o divórcio radical que existe entre o Parlamento e as grandes massas, e a conseqüente impossibilidade – fruto de tal divisão - de que estas se associem livre e autonomamente, e decidam por si mesmas acerca dos rumos de sua atividade laboral.

A política tradicional, aquela que se circunscreve ao âmbito da instituição parlamentar, possui limites muitíssimo estreitos. Mészáros explica que decretos legislativos ou reformas políticas de qualquer tipo não podem proporcionar aos trabalhadores aquilo que é essencial: a capacidade de assumirem os poderes sobre o processo reprodutivo de sua vida material. Em nosso mundo, essa regência é exercida pelo capital. É este que, em sua dinâmica, toma o Estado – e, por conseguinte, o Parlamento - como meio para resolver temporariamente suas crises esporádicas. Não é o Estado, portanto, que controla o capital e a produção humana. É o próprio sistema de produção de mercadorias que organiza e domina o complexo de atividades sociais, políticas, econômicas e culturais dentro do qual nos inserimos. O capital é, pois, essencialmente uma força extraparlamentar de atuação, e é somente dessa maneira que ele pode ser confrontado e vencido.

Política, então, para Mészáros, não pode ser confundida com as ações exercidas nos marcos parlamentares. Diz respeito, na verdade, a algo muito mais amplo: a perspectiva de os “produtores livremente associados” exercerem conscientemente o comando do metabolismo social. Este é o ponto central da questão política, segundo o autor de Para além do capital. No sistema do capital, os trabalhadores estão apartados de tal possibilidade. A superação dessa contradição é o objetivo supremo da práxis revolucionária a ser levada a cabo pelos socialistas.

Aí está, portanto, a raiz do problema que nos atinge a todos: a práxis humana e suas determinações históricas. Em virtude disto, da forma específica como se estruturam hoje as atividades que estão na base da nossa sociabilidade, a necessidade de se transcender a via institucional de atuação é premente, “pois sem o estabelecimento de uma alternativa radical ao sistema parlamentar não pode haver esperança de desembaraçar o movimento socialista de sua atual situação, à mercê das personificações do capital que existem em suas próprias fileiras.” (Cf. Mészáros, 2010, p. 15). O problema a ser atacado é exatamente o da separação entre política – a decisão consciente dos “produtores livremente associados” – e a esfera reprodutiva material da sociedade. E isso só pode ser feito se se vai além da política “tradicional”, visto que o que está em jogo é, justamente, não a mera ocupação e posse do Estado – que não pode, por definição, controlar o capital -, mas o comando da produção por parte dos sujeitos que a realizam. Mészáros argumenta que

nenhuma mudança significativa é viável sem que se volte a essa questão, tanto por meio de políticas capazes de desafiar o poder e os modos de ação extraparlamentares do capital como na esfera da reprodução material. Portanto, o único desafio que poderia, de modo sustentável, afetar o poder do capital seria aquele que assumisse as funções de produção decisivas do sistema e, ao mesmo tempo, adquirisse o controle sobre todas as esferas correspondentes da tomada de decisão política, em vez de ser irremediavelmente condicionado pela prisão circular da ação política institucionalmente legitimada pela legislação parlamentar. (idem, p. 39-40)

O que deve ser, então, a alternativa socialista? Leiamos mais uma vez o filósofo húngaro:

O estabelecimento de uma forma socialista de tomada de decisão, em conformidade com os princípios da inalienabilidade do poder de determinar as regras (isto é, a “soberania” do trabalho não como uma classe particular, mas como condição universal da sociedade) e da delegação de papéis e funções sob condições específicas, bem definidas, com distribuição flexível e supervisão adequada, exigiria invadir e uma radical reestruturação de todos os domínios materiais antagônicos do capital. Um processo que realmente deve ir muito além do princípio de soberania popular inalienável de Rousseau e seu corolário delegatório. Ou seja, em uma ordem socialista, o processo “legislativo” deveria ser fundido ao próprio processo de produção de tal modo que a necessária divisão horizontal do trabalho fosse adequadamente complementada em todos os níveis, do local ao global, por um sistema de coordenação autodeterminada do trabalho. (idem, p. 24)

Fundir o processo de legislar – decidir, estabelecer conscientemente as regras, etc. - ao de produzir – fazer, executar, realizar –, de uma maneira em que os próprios produtores se autodeterminem e se organizem de forma horizontal, tal deve ser o objetivo estratégico dos socialistas. É por essa razão que a nossa práxis não pode se limitar ao campo do Parlamento. Devemos, justamente, superar a fissura estabelecida pelo sistema do capital entre o político (institucional) e a esfera produtiva. Para se confrontar a ação extraparlamentar do capital – aquela que, bem entendido, controla o metabolismo social humano e que utiliza, para esse fim, o Estado – é preciso que nos constituamos, também, como força extraparlamentar. Como isso deve ser feito?

Para que tal projeto se efetive, o poder de decisão, sobre todos os âmbitos da atividade social humana, deve ser cada vez mais transposto para os trabalhadores. A participação ampla e consciente dos “produtores livremente associados” é uma exigência decisiva nesse processo. Como Mészáros (idem, p. 16) esclarece, “A alternativa necessária ao sistema parlamentar está em íntima relação com a questão da verdadeira participação, definida como autogestão plenamente autônoma da sociedade pelos produtores livremente associados em todos os domínios [grifo nosso], muito além das restritas mediações (obviamente ainda necessárias durante algum tempo) do Estado político moderno”. E é somente a verdadeira participação numa forma autogestionária de sociedade que pode promover o fenecimento do Estado, ponto defendido pelos socialistas desde os primórdios de seus embates políticos no século XIX.

Isso estabelecido, Mészáros sintetiza em que deve constituir o movimento revolucionário capaz de enfrentar radicalmente os desafios de nossa época. Assevera o filósofo:

O movimento em questão não pode ser apenas um tipo de partido político orientado para a obtenção de concessões parlamentares, que em geral são, mais cedo ou mais tarde, anuladas pelos interesses especiais da ordem estabelecida que também prevalecem no Parlamento. O movimento socialista não terá sucesso diante da hostilidade dessas forças [isto é, as forças que estão a serviço do sistema do capital] a menos que se rearticule como um movimento revolucionário de massas, ativo de maneira consciente em todas as formas de luta política e social: local, nacional e global/internacional. Um movimento revolucionário capaz de utilizar plenamente as oportunidades parlamentares quando disponíveis, ainda que limitadas nas atuais circunstâncias, e, acima de tudo, sem medo de afirmar as demandas necessárias da ação extraparlamentar desafiadora. (idem, p. 43)

Note-se que Mészáros não descarta a “oportunidade parlamentar”, mas subordina essa prática à exigência de se formar uma força de combate extraparlamentar capaz de arrancar das mãos do capital o poder de decisão sobre a atividade produtiva e transferi-lo cada vez mais aos trabalhadores. Esse movimento, genuinamente político, deve estar apto a “formular e defender organizacionalmente os interesses estratégicos do trabalho como alternativa sociometabólica historicamente viável”, bem como “enfrentar conscientemente e negar vigorosamente” (idem, p. 44) as determinações estruturais da ordem de reprodução material do capital, superando assim, definitivamente, seu poder, que hoje prevalece no Parlamento e fora dele. Nesse processo, como fica claro pela passagem acima, as exigências parciais podem ser reivindicadas, desde que, evidentemente, estejam articuladas com as exigências sistêmicas mais amplas do projeto revolucionário como tal: a superação da relação-capital em si.

Note-se, finalmente, como tal proposta redefine toda uma série de ações que hoje se encontra cristalizada na prática política da esquerda, que de uns anos para cá tem se mostrado preocupada sobretudo em atingir maioria no Parlamento, formar alianças espúrias que lhe garantam a “governabilidade”, administrar com “responsabilidade” as crises do capital e instituir, quando muito, paliativos para os males radicais da classe trabalhadora. Contra isso, o que devemos fazer? Não nos iludir quanto às possibilidades do Parlamento e da democracia burguesa, compôr uma força de atuação política que vá além desses limites, formar novas mediações extraparlamentares de combate, organizar os trabalhadores, transferir a eles cada vez mais o poder de decisão sobre a atividade produtiva – os processos sócio-metabólicos da humanidade -, fomentar intransigentemente a verdadeira participação, promover o fenecimento do Estado por meio de uma luta que articule o local e o global, o nacional e internacional: tais são as preciosas recomendações que Mészáros fornece aos revolucionários do presente.

Notas:

1. MÉSZÁROS, István. A atualidade histórica da ofensiva socialista – uma alternativa ao sistema parlamentar. São Paulo: Boitempo, 2010. Esse livro consiste numa republicação do capítulo 18 de Para além do capital - rumo a uma teoria da transição (São Paulo: Boitempo, 2002). Limitaremo-nos aqui a comentar as formulações contidas na sua Introdução, de cerca de 40 paginas, que é o que há de original na publicação em relação às obras anteriores de Mészáros.

2. O conceito de sócio-metabolismo humano tem um papel tremendamente importante na obra de Mészáros. Diz respeito ao conjunto de relações sociais que regula o intercâmbio entre os homens e a natureza, isto é, a própria atividade produtiva como tal. Na concepção do filósofo húngaro, a luta de classes se dá, antes de mais nada, em torno dessa questão, e se expressa, conseqüentemente, em todos os demais ramos da vida social que com ela se vinculam.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

12 de julho... Entre em meu lar sem bater

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Entre a mi pago sin golpear


Fue mucho mi penar
Andando lejos del pago
Tanto correr
Pa' llegar a ningún lado
Y estaba en donde nací
Lo que buscaba por ahí.

Es oro la amistad
Que no se compra ni vende
Solo se da
Cuando en el pecho se siente
No es algo que se ha de usar
Cuando te sirva y nada más.

Así es como se dan
En la amistad mis paisanos
Sus manos son
Pan, cacho y mate cebado
Y la flor de la humildad
Suele su rancho perfumar.

La vida me han presta'o
Y tengo que devolverla
Cuando el creador
Me llame para la entrega
Que mis huesos, piel y sal
Abonen mi suelo natal.

La luna es un terrón
que alumbra con luz prestada
Solo al cantor
Que canta coplas del alma
Le estalla en el corazón
El sol que trepa por su voz.

Cantor para cantar
Si nada dicen tus versos
¡Ay! Para qué
Vas a callar al silencio
Si es el silencio un cantor
Lleno de duendes en la voz.

Mi pueblo es un cantor
Que canta la chacarera
No ha de cantar
Lo que muy dentro no sienta
Cuando lo quiera escuchar
Entre a mi pago sin golpear.


(Pablo Raúl Trullenque - Carlos Carabajal)

quarta-feira, 7 de julho de 2010

8 de julho, madrugada... Ética!

A simples persistência contra todas as probabilidades é em última análise a matéria de que a ética é feita - ou, como Samuel Beckett o expressa nas últimas palavras da obra-prima absoluta da literatura do século XX, O inominável, uma saga da pulsão que persevera sob o disfarce de um objeto parcial morto-vivo, "no silêncio você não sabe, você deve continuar, eu não posso continuar, eu continuarei."

Slavoj Zizek

Como ler Lacan (Rio de Janeiro: Zahar, 2010, p. 146)

Escrevemos para Compreender

"No princípio respondia que escrevia para ser querido. Imediatamente esta resposta pareceu-me insuficiente e decidi que escrevia porque não gostava da ideia de ter que morrer. Agora digo, e talvez isto esteja certo, que, no fundo, escrevo para compreender."

José Saramago

La Vanguardia de Barcelona, 1 de Setembro de 1997

7 de julho, quatro e meia da manhã... Um soneto

Soneto a uma Velha Amiga

Havia na minha terra um gurizinho
Que adorava jogar bola na rua.
Mas adorava mais ficar sozinho,
À noite, no terraço, olhando a lua.

Ficava horas mirando-a, toda nua.
E compunha-lhe, às vezes, um versinho.
Queria, desejava que fosse sua
E que existisse até lá um caminho...

Mas cresceu o menino. Hoje, ele é poeta...
Já não vai mais ao terraço como antes,
Esqueceu da bola e da bicicleta.

Mas se lhe surge uma saudade antiga,
Vai à janela, e, olhando o céu distante,
Compõe mais uma vez para a lua amiga...

(Demétrio Cherobini)


hehehe